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Nossa Senhora com o Menino Jesus Nossa Senhora com o Menino Jesus  (©CURAphotography - stock.adobe.com)

O encanto da Mãe e do Filho no Mistério do Natal e da maternidade

O mistério do Nascimento de Cristo e da Maternidade de Maria sacode a consciência, mesmo daqueles que não acreditam. Convida a não sermos meros espectadores, mas protagonistas de um evento que mudou o mundo. Literatos, escritores e poetas têm tentado encontrar as palavras certas para dizer o inefável. As vozes de um crente, Dietrich Bonhoeffer, e de um ateu, Jean-Paul Sartre.

Maria Milvia Morciano – Vatican News

É um abismo de luz. É preciso fechar os olhos para não cair nele, respondeu Kafka, baixando a cabeça ao seu amigo Janouch Gustav quando lhe perguntou quem era Cristo. É um mistério luminoso que pode ser evitado se não se forçar a ver, que não pode ser decifrado recorrendo a códigos racionais ou a puras abstrações filosóficas. Há um número infinito de homens literatos, poetas e escritores que tentaram definir e decifrar Cristo, que investigaram sua natureza e mistério, incluindo céticos e não-crentes.

Ainda mais diante do nascimento do Salvador, o episódio que Simeão chama sinal de contradição (Lc 2,34) e São João Henry Newman que chama "a idéia central do cristianismo", o desconcerto se amplifica e dissolve todos, mesmo os mais irredutíveis, num sentimento desarmado que só pode ser chamado por um nome: o amor.

Bonhoeffer: a cela de uma prisão aberta para o imenso

O pastor luterano Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) em vez de permanecer no exílio, em segurança, optou por voltar à Alemanha e permanecer ao lado da "Igreja confessora". Ele foi acusado de conspirar contra o regime nazista e preso pela Gestapo.

Em 17 de dezembro de 1943, da prisão de Tegel em Berlim, Bonhoeffer escreveu uma carta de Natal a seus pais. A situação histórica naquela época era muito diferente daquela que estamos vivendo, mas as palavras que seguem são muito úteis para nos fazer refletir sobre nossa condição, de alguma forma fechada e um pouco mais sozinhos, na época do Natal, por causa das medidas para combater a propagação da Covid.

"Vocês não devem pensar que me deixo abater por este Natal na solidão". [...] É em tempos como estes que se mostra realmente o que significa possuir um passado e uma herança interior que não dependem de mudanças de tempos e eventos. A consciência de ser apoiado por uma tradição espiritual que se estende através dos séculos dá uma firme sensação de segurança diante de quaisquer dificuldades transitórias. Creio que aqueles que sabem que possuem tais reservas de força não precisam se envergonhar nem mesmo dos sentimentos mais ternos, que em minha opinião são próprios dos melhores e mais nobres homens, quando são despertados pela memória de um passado belo e rico. Aquele que se agarra àqueles valores que nenhum homem jamais poderá tirar dele, não será derrotado.

Olhando de um ponto de vista cristão, não pode ser um problema particular passar um Natal na cela de uma prisão. Muitos nesta casa provavelmente celebrarão um Natal mais rico e autêntico do que aquele em que apenas o nome da festa é preservado. Um prisioneiro compreende melhor que ninguém que a miséria, o sofrimento, a pobreza, a solidão, a falta de ajuda e a culpa têm aos olhos de Deus um significado completamente diferente do julgamento dos homens; que Deus se dirige para aqueles dos quais os homens estão acostumados a viras as costas; que Cristo nasceu num estábulo porque não encontrou lugar na  hospedaria; tudo isso para um prisioneiro é realmente um anúncio feliz. Acreditando nisso, ele sabe que está incluído na comunidade dos cristãos que vai além de todos os limites espaciais e temporais e os muros da prisão perdem sua importância. [...] Será um Natal muito silencioso em todos os lugares, e as crianças vão pensar sobre isso por muito tempo no futuro. Mas talvez por causa disso, alguém vai perceber pela primeira vez o que é realmente o Natal".

 

Sartre diante do mistério da Maternidade de Maria

Também Jean-Paul Sartre (1905-1980), um expoente máximo do existencialismo ateu, passou um Natal na prisão, no Lager de Treviri, Alemanha. Nessa ocasião, a pedido de dois sacerdotes, seus companheiros de prisão, ele escreveu uma peça teatral que foi encenada na noite de Natal de 1940: Bariona ou o Filho do Trovão. Esta "história de Natal para cristãos e não-crentes" devia servir para fazer os prisioneiros esquecerem seu sofrimento e dar-lhes esperança. Sartre inspirou-se nos Evangelhos de Lucas e Mateus.

O protagonista, Bariona, encontra-se em um certo momento diante do Menino e aqui as palavras de Sartre se tornam surpreendentes. Na realidade, escondido nas dobras da obra está um significado político que os nazistas não entenderam, confundindo-a com um conto de Natal inocente, mas que não retira o valor profundamente espiritual de suas palavras. Eles nos fazem compreender como diante do mistério da Maternidade de Maria e de uma criança feito Deus não se possa permanecer impassíveis.

Estas palavras parecem pungentes e esclarecedoras ao mesmo tempo. Falam do mistério vivido por cada mãe diante de sua própria maternidade e, ao mesmo tempo, falam do mistério da Maternidade divina, de Maria que em seus braços, acalenta Deus.

"A Virgem está pálida e olhando para a criança. O que deveria ser pintado em seu rosto é um estupor ansioso que não apareceu uma única vez em um rosto humano. Pois Cristo é seu filho, carne de sua carne, e sangue de suas entranhas. Ela o carregou em seu ventre durante nove meses, ela lhe oferecerá seu seio e seu leite se tornará o sangue de Deus. Às vezes a tentação é tão forte que ela esquece que é Deus. Ela o aperta em seus braços e diz: "Meu filho".

Mas em outros momentos, ela permanece parada e pensa: ali está Deus, e ela é tomada por um religioso horror por esse Deus mudo, por essa criança que inspira medo. Todas as mães, em algum momento, permaneceram assim diante daquele fragmento rebelde de sua carne que é seu filho, sentindo-se exiladas diante desta nova vida que foi feita com sua vida e que é habitada por pensamentos estranhos. Mas nenhuma criança foi arrancada mais cruelmente e mais rapidamente de sua mãe do que esta, porque é Deus e ultrapassa em todos os modos o que ela pode imaginar.

E é uma prova dura para uma mãe ter vergonha de si mesma e de sua condição humana diante de seu filho. Mas penso que há também outros momentos, fugazes e velozes, nos quais ela sente ao mesmo tempo que Cristo é seu filho, a sua criança, e é Deus. Ela olha para ele e pensa: "Este Deus é meu filho". Esta carne divina é minha carne. Ele é feito de mim, ele tem meus olhos, a forma de sua boca é a forma da minha, ele se assemelha a mim. Ele é Deus e se parece comigo".

Nenhuma mulher jamais foi capaz de ter desta forma seu Deus somente para si, um Deus-criança que você pode tomar em seus braços e cobrir com beijos, um Deus quente que sorri e respira, um Deus que você pode tocar e que ri. E é nesses momentos que eu pintaria Maria, se eu fosse um pintor, e tentaria render a expressão de ternura e timidez com que ela estende seu dedo para tocar a doce pequena pele deste menino-Deus, cujo peso leve sente em seu colo e que lhe sorri. Isto é tudo sobre Jesus e a Virgem Maria".

 

05 janeiro 2021, 13:57