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Missa pelas vítimas do coronavírus celebrada em 20 de dezembro, na Catedral de São José, em Rawalpindi Missa pelas vítimas do coronavírus celebrada em 20 de dezembro, na Catedral de São José, em Rawalpindi  (AFP or licensors)

Igreja no Paquistão aplaude criação de centro que investiga matrimônios forçados

O rapto e o matrimônio forçado de mulheres e adolescentes é uma prática comum no Paquistão e é cada vez mais utilizado pelos islâmicos como mais um meio de perseguição contra as minorias religiosas.

Lisa Zengarini  - Vatican News

Algo está começando a acontecer no Paquistão no que diz respeito aos casamentos forçados de menores para fins de conversão. Com as denúncias e protestos das Igrejas nos últimos meses, após a história de Arzoo Raja, a garota de 13 anos raptada e forçada a se casar com um muçulmano e a converter-se ao Islã - além de outros casos semelhantes que recentemente chegaram às manchetes - o Governo anunciou a criação de um centro especial que investigará as conversões forçadas de menores pertencentes a minorias.

O anúncio foi feito por Hafiz Tahir Ashrafi, conselheiro especial do primeiro-ministro Imran Khan para assuntos religiosos e presidente do Conselho dos Ulemás do Paquistão.

“Uma coordenação especial foi criada para lidar com questões que dizem respeito às minorias. A ninguém será permitido criar pânico no país com a questão das conversões forçadas e casamentos de menores", escreveu o governante em um tweet em 16 de dezembro. "As questões que dizem respeito aos paquistaneses de fé não muçulmana serão tratadas por meio da criação de conselhos para a harmonia inter-religiosa".

A iniciativa foi saudada por Vincent Thomas, responsável pela Comissão para o Diálogo da Arquidiocese de Karachi, que em declaração à Agência Uca News afirmou que “às vezes é difícil para nós entrarmos em contato com funcionários do governo quando se trata de questões de minorias. Este centro certamente ajudará nossos esforços, veremos como poderá ajudar as minorias e a melhorar a harmonia inter-religiosa no Paquistão".

 

O anúncio da nova iniciativa é dado uma semana após a notícia da acusação por um tribunal do raptor de Arzoo Raja, o muçulmano Azhar Ali, por violar a lei que proíbe o matrimônio infantil e que prevê até dois anos de prisão, e por estupro, que no Paquistão prevê pena de prisão não inferior a 10 anos e, em alguns casos, até pena de morte. Arzoo foi raptada, convertida à força ao islamismo, forçada a um casamento islâmico em outubro passado. Depois de libertada pela polícia, vive agora em um lar adotivo sob o controle de assistentes sociais.

O rapto e o matrimônio forçado de mulheres e adolescentes é, como é de conhecimento, uma prática comum no Paquistão e é cada vez mais utilizado pelos islâmicos como mais um meio de perseguição contra as minorias religiosas. Há algum tempo as Igrejas cristãs e outras minorias pedem uma lei específica que torne os autores destes crimes processáveis, que na maioria dos casos permanecem impunes devido à cumplicidade das autoridades policiais e judiciais.

De acordo com a ONG paquistanesa Center for Social Justice (CSJ), entre 2013 e novembro de 2020, a mídia relatou 162 conversões suspeitas, sendo o maior número de casos (49) relatado em 2019. Mais de 46% das vítimas eram menores, com quase 33% com idades compreendidas entre 11 e 15 anos. Mais de 54% das vítimas pertenciam à comunidade hindu, enquanto 44% eram cristãos.

Mas os casos noticiados pela mídia são apenas a ponta do iceberg, pois muitas vítimas não apresentam denúncias por medo de retaliação. Por isso é pedido, entre outras coisas, a introdução de uma lei que torne obrigatória a validação por parte de um juiz de uma conversão, após a certificação de que tenha ocorrido por livre escolha, além da verificação da idade e do estado civil das partes envolvidas, e emendas à Lei de Restrição do Casamento Infantil.

Nas últimas semanas, houve outros sinais de abertura por parte do governo de Islamabad também na frente da aplicação da polêmica lei sobre a blasfêmia, muito usada como arma de perseguição contra minorias não muçulmanas no Paquistão.

O próprio Ashrafi discutiu isso nos últimos dias com alguns representantes da Igreja Católica e Protestante. Durante a reunião, o governante admitiu que a lei é frequentemente abusada e disse que o governo está a investigando vários casos para limitar os abusos. “Queremos seguir em frente. O Paquistão pertence a todas as minorias religiosas. Todos deveriam trabalhar no âmbito da Constituição e da lei”, afirmou Ashrafi.

Os direitos das minorias violados no Paquistão foram tema de um encontro nacional organizado em 16 de dezembro pela Comissão de Justiça e Paz da Conferência Episcopal do Paquistão, que - relata a Agência Uca News - registrou neste ano um agravamento geral da situação das minorias não muçulmanas, ligada ao crescimento do extremismo religioso.

Vatican News Service - LZ

21 dezembro 2020, 15:03