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Igreja nas Filipinas ao lado dos encarcerados e vítimas da violência

Mensagem da Conferência Episcopal Filipina observa que muitos prisioneiros cometeram delitos relativamente menores, muitas vezes em circunstâncias de grave pobreza e desespero, e “definham em prisões por causa da falta de instrução, de assistência legal, devido à pobreza, por causa de um sistema judiciário deficiente” que deve ser reformado com urgência “de modo que seja fundado na justiça reparatória, como na maior parte das sociedades civis”

Cidade do Vaticano

Paz e justiça para as vítimas dos homicídios extrajudiciais. E mais dignidade aos detentos. É o que veementemente volta a pedir a Igreja católica nas Filipinas, que intervém com afinco em defesa de quem não tem voz. Os repetidos apelos do episcopado se somam agora aos que foram lançados por alguns sacerdotes, que guiaram uma manifestação e celebraram uma missa em Manila.

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Segundo a agência missionária Fides, o jesuíta Albert Alejo, Pe. Flavie Villanueva e Pe. Robert Reyes organizaram uma vigília de oração em recordação das pessoas inocentes assassinadas durante a “guerra contra a droga” lançada pelo governo, que teria feito cerca de 30 mil vítimas em dois anos.

Bispos pedem respeito pela dignidade dos detentos no país

Pe. Alejo exortou os filipinos a “falar das injustiças que se verificam no país”. Efetivamente, “se os vivos se calam, como os mortos podem falar?” As vítimas das execuções “não são apenas números ou estatísticas, porque a injustiça está matando também a verdade, a fé e a esperança dos filipinos”, ressaltou, invocando “o respeito pelo estado de direito no país”.

Numa mensagem difundida por ocasião do recente Dia nacional dedicado à sensibilização sobre a situação dos encarcerados, os bispos lançaram um apelo ao respeito pela dignidade dos detentos no país, onde as condições internas dos cárceres superlotados estão se agravando.

Deus ama todos incondicionalmente

Trata-se de um texto através do qual o episcopado reitera que “o amor de Deus é incondicionado e radical e se estende também àqueles que cometeram os crimes mais atrozes”.

No documento, assinado pelo presidente da comissão para a pastoral carcerária e bispo de Legazpi, dom Joel Zamudio Baylon, a Conferência Episcopal das Filipinas faz votos de que a população tenha consciência “da situação difícil dos membros da comunidade carcerária, em particular as pessoas privadas de sua liberdade e de suas famílias”.

Não se reabilita com o medo ou o terror

“Uma pessoa não perde a sua dignidade tendo praticado um ato pecaminoso, e os encarcerados têm a capacidade de melhorar, especialmente num ambiente em que são ajudados a crescer”, ressalta o prelado, esperando que essa dimensão seja mais seriamente levada em consideração pelo sistema carcerário.

“E é assim que todos nós na Igreja devemos agir, guiados por nossos capelães e voluntários no serviço penitenciário, em colaboração com os guardas carcerários”, acrescenta dom Baylon. “Somente o amor transformará nosso irmãos que erraram, não é com o medo ou o terror que se conseguirá reabilitá-los”, enfatiza.

Convite a seguir o exemplo do Papa Francisco

A mensagem se conclui com um convite a ter “consciência da situação difícil das pessoas que são ignoradas ou que estiveram por muito tempo consideradas mortas por parte da sociedade, pessoas que foram condenadas por causa dos pecados que cometeram”. E a seguir o exemplo do Papa Francisco que “nos implora recordar os prisioneiros como parte da nossa missão de cuidado pelos pobres, esquecidos e descuidados.

As palavras do bispo de Legazpi fazem ressoar o apelo “a tratar os detentos com dignidade”, que o vice-presidente da Conferência episcopal filipina, dom Pablo Virgilio Siongco David, dirigiu nos dias precedentes ao governo e aos funcionários das prisões do país do sudeste asiático.

Um grito de misericórdia

“Não se trata de uma afirmação dos direitos, é um grito de misericórdia, os detentos não pedem um tratamento especial: pedem somente para ser tratados como seres humanos”, disse o bispo de Kalookan.

Num texto difundido pela agência Fides, o prelado observa que muitos prisioneiros cometeram delitos relativamente menores, muitas vezes em circunstâncias de grave pobreza e desespero, e “definham em prisões por causa da falta de instrução, de assistência legal, devido à pobreza, por causa de um sistema judiciário deficiente” que deve ser reformado com urgência “de modo que seja fundado na justiça reparatória, como na maior parte das sociedades civis”.

Condições precárias e superlotação dos cárceres

“Se os líderes políticos declaram abertamente que ‘os criminosos não podem ser recuperados’ e que ‘os toxicômanos não são humanos’ ou se os funcionários governamentais encorajam abertamente a polícia a matar, não se pode esperar que as forças da ordem tenham comportamentos respeitosos da dignidade humana”, acrescenta o bispo.

Segundo o relatório de uma comissão governamental, as condições nos cárceres estão piorando nitidamente: a superlotação das estruturas carcerárias chegou a 612%, com uma população total de 146 mil detentos, diante de uma capacidade de 21 mil. Nos últimos anos a população carcerária aumentou após a política antidroga lançada pelo presidente filipino Rodrigo Duterte.

Bispos rechaçam tentativa de retomar pena de morte

Algumas ongs pressionam o governo pedindo uma investigação aprofundada sobre as operações realizadas que teriam levado à morte de ao menos 30 mil pessoas. Em junho passado, por ocasião dos 30º aniversário da abolição da pena de morte nas Filipinas, a Igreja reiterou a responsabilidade dos legisladores em favor da vida e da dignidade humana.

Os bispos católicos protestaram contra toda tentativa de retomar a pena de morte. “Os legisladores têm a obrigação de opor-se a qualquer lei que ataque a vida humana”, declarou o secretário geral da Comissão para a pastoral carcerária, Rodolfo Diamante.

(L’Osservatore Romano)

08 novembro 2019, 12:23