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Cónego Jorge Cunha Cónego Jorge Cunha 

“É a centralidade da vida da Igreja que está em causa no dia do Corpo de Deus”, diz cónego Jorge

Em entrevista o Cónego Jorge Cunha, presidente do Cabido da diocese do Porto afirma que a Procissão do Corpo de Deus “não é o passeio das coisas sagradas” mas uma boa altura para viver as dimensões da caridade e da partilha.

Rui Saraiva – Porto

No próximo dia 20 de Junho, celebra-se o Corpo de Deus em Portugal, cumprindo-se um dia de feriado nacional. O Cabido da Diocese do Porto promove a Procissão Eucarística na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Esta procissão realiza-se no Porto desde 1417. Com a Procissão do Corpo de Deus, os católicos anunciam que Jesus Cristo é o seu único Salvador e que a Eucaristia é o seu sinal da unidade.

O Presidente do Cabido Portucalense, Cónego Jorge Cunha, em entrevista sublinha os significados essenciais desta importante manifestação religiosa.

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P: Aproxima-se a Festa do Corpo de Deus, a responsabilidade da Procissão no Porto é do Cabido Portucalense. É uma festa de importância para o Cabido...

R: Sim, é uma festa de grande importância para o Cabido, não só historicamente, porque ela compete ao Cabido já há bastantes séculos. Era o Cabido e autarquia que a promoviam. Creio que mantém essa importância uma vez que se trata de algo que é central à vida da Igreja e que é também central à vida da sociedade. O sacramento da Eucaristia é o centro da vida da Igreja e a Procissão do Corpo de Deus é um prolongamento da Eucaristia que é feito de adoração e de procissão. Portanto, trata-se de convocar a cidade para aquilo que é o melhor que a Igreja tem para dar à sociedade. Tem todo o sentido que nós vamos para dentro da cidade em Procissão celebrando o sacramento da própria sociabilidade humana, o sacramento de uma sociedade verdadeiramente humana, humanizada e justa. É a centralidade da vida da Igreja que está em causa no dia do Corpo de Deus. Não é apenas uma devoção.

P: É uma festa de grande importância para as pessoas, para os diocesanos que aderem em grande número sempre neste dia…

R: Sim, o povo do Porto, não sei por qual razão, sempre teve o sentido de que essa Procissão era sua. Instintivamente aderem, porque os do Porto sempre foram muito participantes na vida cívica e sempre tiveram um grande sentido da sua autonomia, da sua responsabilidade na construção da cidade. Eu creio que virá daí essa adesão do povo. Este sentido cívico antigo que há no Porto. O Porto sempre foi diferente, civicamente. Sempre foi o lugar da democracia, o lugar do trabalho, o lugar do desenvolvimento. Eu creio que esta adesão instintiva do povo do Porto à Procissão do Corpo de Deus tem que ver com esse fundo cívico e cultural que justifica esta sintonia com esta celebração.

P: Trazer a Eucaristia para as ruas de uma cidade tem um significado forte para a Igreja e para todos aqueles que participam na Procissão. Mas que significado tem depois, em termos de presente e de futuro, de presença depois na vida das pessoas?

R: A Eucaristia é o sacramento do pão. O pão está ligado à coisa mais imediata da vida das pessoas, da produção do pão e, portanto, do provimento da necessidade das pessoas. Isso tem algo que radica profundamente na nossa existência. A Igreja tem uma velha sabedoria que lhe vem do Evangelho, de sacramentalizar aquilo que vale antropologicamente. E o pão liga-se à economia. Quando fazemos esta procissão nós estamos a representar a economia humana, estamos a lembrar que a economia é prover às necessidades das pessoas e para lembrar que toda a especulação que anda à volta dela tem de ser pensada de outro modo e, portanto, temos de regressar às coisas básicas da vida, certamente, também à sociabilidade e à construção de uma sociedade justa. E até de nos lembrar que a nossa vida cívica e política depende de coisas que não estão no nosso poder. Isto é, nós recebemos também a democracia e a economia e a prosperidade, recebemo-la como uma dádiva. No Corpo de Deus está todo este conjunto de dimensões implicadas. Portanto, creio que tem todo o sentido purificar a Procissão do Corpo de Deus não fazendo dela uma coisa supersticiosa, nem o passeio das coisas sagradas… Não é nada disso. É a lembrança ao povo da memória de que aquilo que a Igreja dá é aquilo que o mundo verdadeiramente precisa, ou aquilo que Deus dá é aquilo que o mundo precisa.

P: Portanto, a Festa do Corpo de Deus pode ser uma boa altura para se falar de partilha de solidariedade e até de caridade?

R: Com certeza, é isso que está em causa. A Eucaristia é um sacramento dessas dimensões da caridade, da relação de um ser humano com outro ser humano, da relação do ser humano com a terra que nos alimenta e, certamente, a relação do ser humano com Deus, que é a relação mais profunda que nos constitui.

P: Tendo em conta esses valores tão fortes e universais como a solidariedade, a partilha, a dádiva e a caridade, acha que, mesmo no caso de Portugal sendo a Festa do Corpo de Deus um feriado que é nacional, tem sido bem aproveitado este Dia do Corpo de Deus para sublinhar de maneira mais concreta estes valores, ou fica-se apenas e só pelo dia da procissão?

R: Certamente, há coisas que não conseguimos fazer. Mas o facto de existir esse dia e de existirem inúmeras homilias, inúmeras orações, inúmeras adorações do Santíssimo, vem-nos lembrar isso. Certamente, é função da pastoral dar um nome a isso continuamente. Mas é um privilégio que não podemos deixar de aproveitar e de podermos celebrar naquele dia aquilo que é central na nossa existência e aproveitar isso para lhe ampliar as dimensões e para introduzir o nosso povo naquilo que é verdadeiramente decisivo na nossa vida pessoal, cívica e de sociedade.

P: O Papa Francisco tem sempre falado de que é importante manter e aproveitar estas manifestações de piedade popular. Acha que isso tem sido conseguido ou haverá coisas a melhorar?

R: Tudo parte da piedade popular. Porque a piedade popular é a manifestação originária da nossa humanidade. A religiosidade é um sentimento básico da nossa existência sobre o qual pode depois desenvolver-se um processo de evangelização, um processo de celebração. A pastoral da Igreja tem todo o interesse e toda a responsabilidade de encaminhar a religiosidade para o verdadeiro Evangelho.

O Cónego Jorge Cunha, é o presidente do Cabido da Diocese do Porto em Portugal. No próximo 20 de junho Portugal cumpre um dia de feriado nacional celebrando o Corpo de Deus.

12 junho 2019, 12:13