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Psicoterapeuta analisa consequências para quem sofreu abuso Psicoterapeuta analisa consequências para quem sofreu abuso 

Tragédia emocional: a experiência de quem sofreu um abuso

A psicoterapeuta Dra. Maria Clara Jost fala de "tragédia emocional" em quem sofreu abuso. Uma experiência que "destrói toda a configuração da pessoa sobre si mesma, mas passível de ser reconfigurada".

Bianca Fraccalvieri – Cidade do Vaticano

Tragédia emocional: assim a psicoterapeuta Dra. Maria Clara Jost define a experiência de quem sofreu um abuso.

Trata-se de uma avalanche interior que leva à desconstrução do “eu”, um sofrimento profundo que, porém, é possível ser superado. Dra. Maria Clara tem um escritório em Belo Horizonte (MG) e entre seus pacientes já teve vítimas de abusos por parte de clérigos:

Ouça a entrevista

A experiência do abuso sexual, que pode estar presente em todas as esferas sociais, geralmente acontece com as pessoas mais próximas à vítima, quer dizer, aquela pessoa que elas mais confia ou mais confiava, e é um sofrimento profundo. Um sofrimento que provoca uma desagregação interior, que se estende para todas as áreas de vida da pessoa.

Quais são as consequências psicológicas mais visíveis?

Eu chamo isso de tragédia emocional, porque o abuso sexual destrói toda a configuração da pessoa sobre si mesma. É uma destruição passível de ser reconfigurada, mas há uma alteração na maneira da pessoa pensar sobre si mesma, então vai gerando sentimento de baixa autoestima, um sentimento de ser alguém desprezível, inútil, às vezes a pessoa fala de si mesma como sendo um lixo, não amável, uma pessoa ruim. Às vezes provoca sentimento de culpa, que é muito diferente de culpa, mas a pessoa tem sentimento de que ela seria menos merecedora de amor. Então nasce um sentimento de insegurança, que tende a se estender por toda a vida da pessoa se não houver uma interferência neste processo.

De que modo essa experiência pode abalar a fé de uma pessoa?

O sofrimento do abuso quando ele é perpetrado por pais, tios, irmãos, avôs, quer dizer, são pessoas de extrema confiança daquela criança, daquela pessoa, ela já provoca uma grande ruptura. É o que acontece com membros do clero, isto é, ele é uma pessoa que representa aquele exemplo de confiança, naquele em que se pode confiar. É desestruturação da experiência de confiança e a fé está ligada, pois é uma experiência radical de confiança. Então quando você rompe esses alicerces dessa experiência, isso pode acarretar numa dificuldade de acreditar numa presença de amor transcendente. Então há uma ruptura na experiência da confiança que pode levar, sim, à perda da fé.
 

19 fevereiro 2019, 10:01