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Antônio Cardoso, uma vida missionária

“Para muitos, cantar pode até ser um gesto mecânico. Para mim, ser cantor religioso é testemunhar a vida”.

Silvonei José – Cidade do Vaticano

O Programa Em Romaria desta semana do Vatican News tem como convidado especial Antônio Cardoso, cantor e compositor brasileiro de músicas cristãs, particularmente, de música católica.

Filho de Antonio Silva de Carvalho e Sílvia Cardoso de Carvalho nasceu em Migueç Calmon, na Bahia. Aprendeu a cultura musical com o pai que era músico e a partir de 1975 passou a residir em São Paulo e em seguida como músico foi apoiado pelo Padre Zezinho. Inicialmente fez parte de Lp's nas Edições Paulinas e desde 1979 iniciou carreira solo; De 1986 até 1989 pausou a carreira de gravações para fazer shows pelo Brasil. Numa conversa com Silvonei José, Antônio Cardoso conta sobre a sua vida de missionário, de músico e sobre os seus projetos.

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Antonio Cardoso

Minha origem é de um menino pobre que nasceu no sertão da Bahia, na cidade de Miguel Calmon. Meu pai era músico de uma pequena filarmônica. Era ele quem me levava todas as noites para o ensaio e ali mesmo me ensinava sobre música. Havia uma preocupação muito grande por parte de meu pai quando eu ganhei do meu padrinho de crisma um cavaquinho. Ele achava que aquele instrumento não combinava com sua proposta de educação. A mamãe fazia parte do apostolado da oração. Uma vez por semana tinha reunião do grupo e ela fazia questão de me levar. Foi papai que me ensinou música e foi mamãe que me ensinou a fé. Cresci num ambiente pobre, mas, de muita confiança. Nem mesmo a doença de mamãe que marcou todos nós foi motivo para desespero. 

Em 1975, embalado pelo sonho de São Paulo, cheguei à capital dos paulistas no dia 31 de agosto. Ainda lembro como hoje. Assustado, mas encorajado pela vontade de vencer. Em 1978 conheci um famoso pregador. Era uma tarde de Domingo, ele veio pregar na paróquia Menino Jesus de Tucuruvi e naquele instante as pessoas ali presentes induziram-no a me convidar para cantar na sua pregação. Foi o suficiente para em seguida surgir um convite missionário. Vem comigo! Eu prego, você canta e a gente vai pelo Brasil a fora levando a palavra de Deus, animando o povo na fé. Neimar de Barros exercia um fascínio nas pessoas que impressionava a todos. Por onde passava eram verdadeiras multidões. Eu não pensei duas vezes. Larguei emprego, família, tudo enfim e fui pelo Brasil a fora com Neimar. Duraram oito meses. Foi tempo suficiente para conhecer um pouco mais a igreja e para que eu sonhasse também com minhas próprias asas. 

Fui atrás da oportunidade de gravar meu primeiro disco nas Paulinas. Fui à luta, com a retaguarda das irmãs e com meus próprios instrumentos. Nada foi fácil. Era uma época de censura. Em plena ditadura militar o meu sonho de cantor se conflitou com o conteúdo das minhas canções. Eu sempre imaginei que o poeta é acima de tudo um repórter do seu tempo e de sua época. Para mim, era impossível não cantar sobre os problemas sociais do Brasil. Era o que estava na minha história. Um jovem migrante nordestino que sentiu na pele a fome, a seca e o abandono dos governos, só podia dizer em suas canções coisas que retratavam a sua vida. Era interessante porque o grande sonho de cantor se chocou no problema político da época. Qual emissora de rádio poderia executar canções de protesto com tanta censura? 

Eu, cantor religioso e os meus sonhos. Em função dos conteúdos de minhas canções e do meu jeito de apresentá-las, a canção foi que ficou a meu favor. Era apenas a canção. Foi assim, que ao longo de quase 30 anos de viagens missionárias, eu já pude cantar em mais de 3000 cidades brasileiras. Nesta longa caminhada, às vezes eu me perguntava como é que Deus se faz presente na vida de um cantor religioso, e descobri que minha vocação não é me confrontar com este ou aquele grupo. Eu sei que a graça de Deus e a sua força estavam sempre comigo, mesmo assim, diante de tantos desafios eu também me perguntava se não era o caso de parar com tudo, e lá no fundo de meu coração alguém me dizia: Quem conheceu um amigo, jamais morrerá.

Ao longo destes anos de vida missionária, de altos e baixos, de alegrias e tristezas, é impossível esquecer daqueles que me acolheram em seus corações: Pe. Zezinho e as Irmãs Paulinas que me fizeram amigos de pessoas que eu nunca vi e me fizeram família de lares que eu nunca visitei. Gravei 2 compactos, 3 LP s, 6 CD s e participei de vários discos celebrativos. Tenho consciência da luta de minha gravadora para fazer acontecer discos que nem sempre tinham resultados comerciais favoráveis, mas, reconheciam que eram necessários pastoralmente. Em muitos momentos, o Pe. Zezinho me ensinou atravessar grandes tempestades com o seu jeito de cantar e de compor. Acho que só ele falou das flores e dos espinhos sem perder a ternura. Hoje estou vivendo o meu tempo intensamente. 

Casado desde 1991, tudo mudou na minha vida. Se antes eu achava que bastava apenas ser poeta para ver o mundo com os olhos de Deus, hoje eu descobrir que os olhos de Deus estão na criança. Ver o mundo com os olhos de criança é bem diferente. E não é necessário ser pai para ver o mundo desse jeito. Afinal, a gente ama tanto aqueles que entram na gente como aqueles que saem da gente. No meu caso, foi a Gabriela quem mudou o meu jeito de ser. Minha filha que ainda pequena é quem me conduz com o seu olhar para um mundo de paz em tempos de conflitos. É impossível não falar de família tendo um lar tão aconchegante como o meu. Neste instante de minha vida, todas as respostas para o cantor de quase 30 anos atrás estão dentro do meu lar. Para muitos, cantar pode até ser um gesto mecânico. Para mim, ser cantor religioso é testemunhar a vida.

14 junho 2018, 13:00