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Guerra na Síria dura sete anos Guerra na Síria dura sete anos  (ANSA)

Editorial: Pacem in Terris no mundo onde sopram ventos de guerra

Na noite desta sexta para sábado foi desfechado na Síria um ataque a objetivos militares conduzidos por EUA, França e Inglaterra, que pode levar a uma exasperação da situação já bastante tensa na queda de braço entre EUA e Rússia no âmbito da questão síria. 55 anos após a Pacem in Terris sopram novos ventos de guerra.

Raimundo de Lima - Cidade do Vaticano

O mundo inteiro tem acompanhado com crescente preocupação, nestes dias, os ventos de guerra que, impetuosos, sopram mais uma vez ante a ameaça de uma conflagaração bélica entre potências mundiais. Nestas horas, Washington e Moscou continuam sua guerra verbal, que sempre mais ameaça transformar-se em conflito aberto com ataques aéreos e com mísseis, no contexto já demasiadamente difícil da situação síria.

55 anos da Pacem in Terris, novos ventos de guerra

De fato, na noite desta sexta para sábado foi desfechado na Síria um ataque a objetivos militares conduzidos por EUA, França e Inglaterra, o que pode levar a uma exasperação da situação já bastante tensa na queda de braço entre EUA e Rússia no âmbito da questão síria. Encontrando-nos nas primeiras horas após a referida incursão, ainda não se sabe com precisão qual o alcance do ataque, o fato é que a reação de Moscou não se fez esperar ao declarar que a ação bélica desta noite não ficará sem resposta.

55 anos atrás, num momento em que a comunidade internacional parecia estar correndo em direção ao terceiro conflito mundial, o Papa João XXIII publicava sua oitava e última Carta encíclica, a Pacem in Terris, cujo aniversário celebramos quarta-feira passada, 11 de abril.

Com a Pacem in Terris, primeira encíclica dirigida também aos não-cristãos, a todos os homens de boa vontade, o Magistério da Igreja deu um verdadeiro salto de qualidade como consciência crítica da humanidade, enriquecendo ulteriormente o corpus doutrinário do Magistério social da Igreja, que – vale lembrar – é perita em humanidade.

Focada no tema da não-beligerância e na construção de caminhos da paz, o memorável documento magisterial do Papa Roncalli (Angelo Giuseppe Roncalli era seu nome de batismo), apresenta na Verdade, Justiça, Amor e Liberdade os fundamento da paz.

Falando para um mundo dividido em dois blocos, o “Bom Papa João” dedica todo o documento à urgente questão da paz diante da tensão pelo risco de um conflito atômico num contexto de intensificação da guerra fria.

Passado mais de meio século, a encíclica conserva toda a sua atualidade, com uma força de persuasão que chega aos nossos dias qual convite a revisitar sua premente mensagem ante os ventos de guerra que sopram nestas horas.

De fato, a paz permanece apenas som de palavras, se não for alicerçada naquela ordem traçada com confiante esperança: “uma ordem fundada na verdade, construída segundo a justiça, vivificada e integrada pela caridade e implementada na liberdade”.

Referência da Doutrina Social da Igreja, a Pacem in Terris constitui evocação constante nos pronunciamentos da Igreja nas várias instâncias internacionais e em documentos sucessivos de seu magistério qual fonte de inspiração no tocante ao tema da paz.

Apenas para concluir, registro aqui, de passagem – no âmbito das atividades do Papa e da Santa Sé –, dois eventos que marcaram a semana que se está concluindo.

Na segunda-feira, dia 9, a apresentação, na Sala de Imprensa da Santa Sé, da Exortação apostólica do Papa Francisco, Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e Exultai), sobre o chamado à santidade no mundo de hoje.

Francisco indica, entre outros, as características “indispensáveis” para entender o estilo de vida da santidade: “perseverança, paciência e mansidão”, “alegria e senso de humor”, “audácia e fervor”. O caminho da santidade vivido como caminho que se faz “em comunidade” e “em constante oração”.

Afirmando que nos tornamos santos vivendo as bem-aventuranças, o Papa lembra que o caminho à santidade é para todos, que a Igreja sempre ensinou que é um chamado universal e possível a qualquer um, como demonstrado pelos muitos santos “da porta ao lado”.

O Pontífice ressalta que a vida de santidade está intimamente ligada à vida de misericórdia, “a chave para o céu”. Santo, afirma, é aquele que sabe comover-se e mover-se para ajudar os miseráveis e curar as misérias.

Na terça-feira, dia 10, o Papa Francisco encontrou-se com os Missionários da Misericórdia, cerca de 550 sacerdotes, um dos frutos do Jubileu extraordinário da misericórdia. Trata-se de padres que, com a aprovação de seus respectivos bispos, foram confirmados pelo Santo Padre para reconduzir à reconciliação todos aqueles que procurarem a misericórdia de Deus.

“Realmente, devemos reconhecer que a misericórdia de Deus não tem limites e com este ministério vocês são sinal concreto de que a Igreja não pode, não deve e não quer criar nenhuma barreira ou dificuldade que seja de empecilho ao acesso ao perdão do Pai”, disse Francisco dirigindo-se aos missionários da misericórdia. Que o Senhor tenha misericórdia de todos nós e nos dê a sua paz.

14 abril 2018, 08:30