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Crianças em marcha pela paz na República Centro-Africana Crianças em marcha pela paz na República Centro-Africana 

RCA: Bispos condenam assassinatos de civis e sacerdotes

Num comunicado, com data de 16 de novembro de 2018, a Conferência Episcopal da República Centro-Africana, CECA, condena veementemente os sucessivos assassinatos de civis e sacerdotes que se verificaram recentemente no País.

Cidade do Vaticano

Um ataque no Bispado de Alindao, que abrigava mais de 26 mil deslocados internos, por parte dos rebeldes da União para a Paz, na República Centro-Africana, o UPC, um dos grupos rebeldes que percorrem o País, causou pelo menos 42 mortos no passado dia 14 de novembro. Entre as vítimas inocentes estão dois saserdotes, Monsenhor Blaise Mada, Vigário Geral da Diocese de Alindao e o Padre Célestin Ngoumbango, pároco da Paróquia de Kongbo.

MINUSCA e Governo fortemente interpelados

A Conferência dos Bispos da República Centro-Africana lançou um forte apelo à força da ONU que trabalha no País, a MINUSCA, bem como ao governo centro-africano a coordenarem as "suas ações para que os perpetradores desses assassinatos e os seus mandantes sejam presos e levados à justiça”. Mais uma vez, eles deploram com consternação o ataque ao Bispado de Alindao. "Porque a Igreja Católica se tornou alvo dos grupos armados  criminosos na República Centro-Africana?”, se interroga a Conferência Episcopal Centro-Africana.

Comunidade cristã convidada à calma

No Comunicado, os bispos centro-africanos apresentam as suas condolências ao Bispo de Alindao, Dom Cyr-Nestor Yapaupa, a todos os sacerdotes e fiéis da diocese, bem como às famílias de todas as vítimas. A maldade criminal, sublinha o comunicado, não pode permanecer impune indefinidamente. E o Episcopado condena a "cumplicidade responsável de quem tem o dever de intervir para parar estes crimes contra a humanidade, mas deixa passar". No entanto, os Bispos centro-africanos exortam as comunidades cristãs a permanecer calmas e em oração, para não caírem na armadilha do ciclo de vingança.

Crimes que nos lembram uma lista já longa

O assassinato dos dois sacerdotes é apenas o mais recente de uma série de assassinatos na República Centro-Africana. Recordamos o assassinato do padre Firmin Gbagoua, vigário geral da diocese de Bambari, baleado à queima.roupa em 29 de junho de 2018, tendo morrido logo depois com os ferimentos. No dia 1 de maio de 2018, o padre Albert Toungoumalé Baba e pelo menos 16 pessoas foram mortos durante um ataque à Igreja Católica de Nossa Senhora de Fátima, onde os cristãos estavam reunidos por ocasião da festa de São José Operário, que coincide com a festa do Trabalho.

Não limitar-se a denunciar o massacre: D. Aguire

"Não se limitem apenas em denunciar o massacre dos cristãos, perguntem-se porque aconteceu", diz Dom José Aguirre Muños, bispo de Bangassou, uma diocese no sudeste da República Centro-Africana, vizinha à de Alindao, onde os rebeldes ex Seleka da UPC (Unidade para a Paz na República Centro-Africana), mataram mais de 40 pessoas no dia 15 de novembro, incluindo o Vigário Geral, Mons. Blaise Mada e o P. Celestine Ngoumbango, pároco de Mingala.


"O evento que desencadeou o massacre foi o assassinato de um mercenário nigerino da UPC, há poucos dias", recorda Dom Aguirre. "Os membros da UPC são Peuls vindos principalmente de países vizinhos como o Níger. A UPC, nascida de uma divisão da Seleka, se instalou em Alindao há 5 anos, na parte ocidental da cidade. A missão católica está no leste, onde está localizado o campo de deslocados para os não-muçulmanos, que acolhe cerca de 26 mil pessoas

"A represália foi terrível", diz o Prelado. "Os invasores assaltaram, saquearam e incendiaram o campo de deslocados e mataram mulheres e crianças; incendiaram a catedral onde mataram os dois sacerdotes. Imediatamente depois os mercenários da UPC deixaram entrar na parte oriental de Alindao grupos de jovens muçulmanos que saquearam o bispado e queimaram o presbitério e o centro da Caritas.

"Todos se foram embora, menos Dom Cyr-Nestor Yapaupa, bispo de Alindao, e três padres que quiseram permanecer perto da população", ressalta Dom Aguirre. Os Capacetes Azuis da MINUSCA não intervieram para defender os civis do ataque UPC, diz o bispo, mas assim que o ataque começou, retiraram-se para as suas bases.

Mercenários estrangeiros e interesses para dividir RCA

Dom Aguirre ressalta que "não nos podemos limitar a denunciar estes massacres. É necessário ir ao fundo daquilo que está a acontecer na RCA. Grupos como a UPC são formados por mercenários estrangeiros que há 5 anos ocupam partes do nosso território. São financiados por alguns países do Golfo e guiados por alguns Estados africanos vizinhos. Entram no Chade através de Birao com armas vendidas à Arábia Saudita pelos Estados Unidos.

RCA como porta para a RDC e o resto do Continente

Eles querem dividir a RCA alimentando o ódio entre muçulmanos e não-muçulmanos. Desta forma, aproveitam-se para saquear as riquezas centro-africanas, ouro, diamantes e gado. Mas sobretudo, alguns países estrangeiros e não africanos querem usar a RCA como porta para entrar na República Democrática do Congo e no resto do continente, manipulando o islamismo radical. É este o jogo que está por detrás do massacre de Alindao" – concluiu dizendo Dom Aguirre.

“Não existe guerra religiosa na RCA, mas sim interesses, e mesmo de potências estrangeiras, para explorar as riquezas deste País”: confirmou em entrevista ao Vatican News o padre Mathieu Bondobo, vigário geral da arquidiocese de Bangui, a propósito do massacre de 15 de novembro último, em Alindao, no sul do País, onde mais de 40 pessoas, incluindo dois sacerdotes, foram brutalmente trucidadas, algumas das quais queimadas vivas, pelo grupo armado rebelde UPC, composto principalmente por muçulmanos.

18 novembro 2018, 12:56