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Vatican News
2018.10.09 Leslye Colvin - Africana-americana, cattolica dell'Alabama, membro della Rete "Catholic Women Speak" , alla Radio Vaticana Leslye Colvin no Dicastério para a Comunicação 

O Racismo é um demónio tremendo – Leslye Colvin

Natural do Alabama, Leslye Colvin, africana-americana, conta com emoção o seu crescimento num ambiente racialmente segregacionista e da potencialidade que viu na Igreja para superar o problema racial. Ela veio a Roma tomar parte no encontro da Rede “Catolic Women Speak” de que faz parte.

Dulce Araújo - Cidade do Vaticano 

Lesly Colvin é natural e residente no Alabama. Veio recentemente a Roma, onde tomou parte, no dia 1 de Outubro, num encontro realizado pela Rede “Catholic Women Speak” e em que foi apresentado o livro “Visions and Vocations” para o qual ela contribuiu com um testo.

Crescida num ambiente segregacionista

Na sua intervenção no encontro e na entrevista que nos concedeu posteriormente, contou a sua experiencia como criança africana-americana crescida num ambiente racialmente segregacionista e onde os seus pais foram, todavia, aceites na única paróquia católica da cidade onde viviam.

Potencialidade da Igreja para ultrapassar racismo

Mais tarde, participando no programa “Fé Justa” compreendeu que na base desse acolhimento estavam os ensinamentos sociais da Igreja, o que ela considera um potencial para ultrapassar o racismo, pois sabe que nem todos os afrodescendentes tiveram a experiencia positiva que os seus pais tiveram na Igreja. 

Católica, profissionalmente empenhada na Comissão Católica para o Sul dos Estados Unidos, Leslye gosta de estar na “Catholic Women Speak” porque é uma forma de estar numa irmandade com pessoas que partilham a mesma fé.

Década dos Afrodescendentes

Instada a falar da Década dos Afrodescendentes e como está a ser vivido num Estado emblemático do ponto de vista da resistência dos africanos-americanos pelos seus direitos, como é o Alabama, diz esperar que seja uma ocasião para os afro-americanos partilharem as suas experiencias, as suas histórias, e menciona o Museu recentemente aberto em Montgomery em memoria dos Negros que foram linchados nos Estados Unidos.

Racismo, um demónio tremendo, difícil de extirpar da sociedade

Para ela a luta travada pelas gerações precedentes de afro-americanos a fim de conquistar os seus direitos, faz sentido ainda hoje, pois “o racismo é um demónio terrível” e continua a afectar a vida das pessoas.

Oiça as suas palavras em Década dos Afrodescendentes
Oiça a entrevista em inglês

Aqui a transcrição de parte da entrevista em português

 

Teve lugar no  dia 1 de Outubro de 2018, na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma, uma conferencia organizada pela “Catholic Women Speak” (Mulheres Católicas Falam). Essa rede de mulheres católicas, em colaboração com outras organizações, como a “Voices of Faith”, apresentou nesse dia o livro em inglês “Visões e vocações”, uma colectânea de textos de várias mulheres do mundo, a mais jovem com 14 anos, sobre questões relacionadas com a mulher na Igreja hoje. À cabeça da “Catholic Women Speak” está a teóloga britânica, Tina Beattie. Ela convidou para o encontro diversas mulheres, entre as quais a africana-americana Leslye Colvin, do Estado do Alabama. No final, convidámo-la aos nossos estúdios para nos contar a sua experiencia.

Obrigada, Dulce. Estou muito feliz por encontrar-te e estou agradecida pela oportunidade de falar contigo e com os teus ouvintes. Sou do Estado do Alabama, nos Estados Unidos, e a minha família está lá desde gerações. Três gerações da minha família aderiram à Igreja católica desde o início até aos meados dos anos 60; na minha cidade, há muito poucos católicos e de entre eles muitos poucos africanos-americanos ou negros americanos. 

Há já algum tempo que sou parte da Catholic Women Speak e quando chegou o convite para ser incluída no livro, pensei “não tenho nada para dizer.” Mas Tina Beattie enviou um outro pedido e, ela queria, de modo particular a voz, a perspectiva de uma mulher que se identificasse como africana-americana. Foi então que levantei a mão e disse para mim mesma que podia partilhar a minha experiência”.

- E o que é que partilhou?

“Partilhei essencialmente aspectos da minha experiencia de ter crescido numa sociedade racialmente segregacionista (nasci em 1958) e fui para a escolas segregadas até ao 7º ano; quando se ia ao médico, por ex., havia uma sala de espera e uma sala de consulta só para negros; recordo muito bem uma pequena sala de espera sem janelas, a recepcionista ficava posicionada num lugar em que podia puxar a sua cadeira para nos fazer assinar e dessa sala se podia ver do outro lado aquilo que era a sala de espera dos brancos, sala com uma grandes janela.

Então, esta é uma das recordações muito nítidas que tenho de viver numa sociedade segregacionista. As igrejas eram também segregadas racialmente. Havia muitos protestantes no Alabama (antes de mais baptistas, e em segundo lugar metodistas) então havia um grande número de Igrejas identificadas como sendo para brancos e outras para pretos, e quando os meus pais começaram a frequentar, havia uma única paróquia católica, o mesmo na pequena cidade onde vivia a minha tia e os meus avós: havia uma única paróquia. E nessas duas paróquias eram aceites pelo clero e pelos paroquianos. Recordo muito bem os meus pais muito activos como líderes na paróquia, ensinando, servindo como leitores, nas eucaristias, servindo em diversos sectores.

Quanto me tornei adulta é entrei num programa que se chama nos Estados Unidos “Fé Justa”. Isso me introduziu na linguagem e nos ensinamentos sociais da Igreja. E foi quando estava nesse programa que compreendi que era por causa dos ensinamentos sociais da Igreja – que preconiza a dignidade de cada pessoa – que os meus pais eram aceites nessa Paróquia de São Colombo.

Ao crescer via  ouvia emissões televisivas que na vigília do Natal e da Páscoa, mostravam sempre pessoas que trabalhavam no Vaticano para as celebrações da Eucaristia e como criança africana-americana ver essa beleza da criação divina e a sua diversidade…, sabia que a minha Igreja tinha a potencialidade de ir para além da divisão racial. E exprimi isso em termos de potencialidade para ultrapassar a divisão racial, porque sei que a minha experiência não foi a de muitos africanos-americanos católicos. Sei que houve lugares em que as paróquias foram segregacionistas. Há africanos-americanos que tiveram se sentar ao fundo ou de receber a Eucaristia depois de todos os outros, mas a minha experiencia é essa e foi diferente da dos outros: foi a de ter sido aceite como parte da paróquia.

- E agora porque é que faz parte da "Catholic Women Speak". Há alguma coisa que não lhe agrada na Igreja, relativamente à mulher, à raça...? Há alguma coisa que acha que é preciso mudar na Igreja?

Sou parte da Catholic Women Speak porque é uma bela oportunidade fazer parte duma irmandade de mulheres católicas de várias partes do mundo, uma bela oportunidade! Acredito que na sociedade quando há sistemas e instituições, há sempre uma oportunidade de crescimento porque se aprende mais sobre si próprio no contexto de histórias colectivas, à luz do Evangelho. Acredito que Deus está sempre a convidar-nos para O conhecer melhor, para O encontrar de forma mais aprofundada; a fé não é uma experiencia linear, é uma experiencia que descrevo como algo de cíclico. E sei também que através do planeta a Igreja é una. E sei que é influenciada pelas culturas onde existe e que temos de ter isso na mente quando procuramos viver o Evangelho nos nossos dias. Então, primeiramente, faço parte da Catolic Women Speak porque é uma bela oportunidade de estar em irmandade com mulheres que partilham a minha mesma fé. Tenho amigas de várias outras confissões, fazer parte da Catholic Women Speak não é, portanto,  para mim um acto exclusivo, porque a minha própria vida fala à humanidade, às pessoas, mas é sempre belo estar com outros com cuja visão nos identificamos."

- Sabemos que Alabama é um lugar histórico de resistência dos africanos-americanos pela conquista dos seus direitos. Essa luta continua, faz sentido ainda hoje?

Sim, faz. Como nativa e residente no Alabama, sinto-me tocada pelo facto de você ver o Alabama como um Estado onde nós afro-descendentes somos conhecidos pela nossa resistência. É verdade, a resistência dos meus pais, dos meus avós e de outras gerações precedentes continua ainda hoje porque o sistema baseado na ideia de raça – o que é na realidade uma construção social – continua ainda a agir nas nossas vidas de hoje: leis que foram aprovadas, políticas, acções, hábitos, tradições baseadas em falsas noções… é difícil compreender como que é um ser humano pode erigir um tal sistema para negar a dignidade de outras pessoas. Isto ultrapassa-me, não consigo compreender. O que é frustrante hoje é que isto está de tal maneira enraizado na cultura e no coração de tantas pessoas que a luta continua e continuará ainda por longo tempo.

No ano passado ouvi uma pastora baptista falar, ela é descendente de africanos, o seu nome é Reverenda Angel Kyodo Williams, ela falava numa conferência e a pergunta que lançou e que me ficou na cabeça – e a questão era posta no contexto da escravatura – era: o que terá dito uma mãe branca ao seu filho de 12 anos, o que terá dito a ela própria, quando via uma criança africana de 12 naos a ser vendida como escrava. Reconhecemos uns aos outros como seres humanos – isto é parte da humanidade, reconhecemos os outros como pessoas. Então que mentira terá dito essa mãe branca a ela própria e ao seu filho para lhe permitir viver nessa cultura e que noções… terá transmito ao seu filho para que ele crescendo diga, isto está bem, é aceitável!?

E hoje é difícil, porque o racismo é um demónio tremendo!, as pessoas de descendência europeia em Alabama e outros lugares onde o racismo existe nos Estados Unidos - e na verdade é através de todos os 15 Estados que compõem o país  - quando se tenta levantar a questão, as pessoas respondem logo dizendo: “eu não sou racista, eu não sou racista.

Primeiramente não identifiquei a pessoa como racista, partilhei simplesmente a experiencia que vivi. Ora, dizendo constantemente “não sou racista, não sou racista” a outra parte está a fechar-se, a não aceita ouvir aquilo que tu queres partilhar. Em segundo lugar, o racismo não é apenas acerca de indivíduos, é acerca da nossa sociedade, foi criada, engenhada para promover privilégios – de quem? Certamente, não dos afrodescendentes e então, se és descendente de europeus deves compreender que alguém – que seja ou não teus directos antepassados – criou um sistema para te beneficiar, para te privilegiar e, então, mesmo que sejas uma pessoa extremamente pobre e branca, ou descendente de europeus nos Estados Unidos continuas a ter privilégios simplesmente porque a maior parte dos teus antepassados são europeus.

- As Nações Unidas declararam uma Décadas dos Afrodescendentes (2015-2024) para favorecer o reconhecimento, a justiça e o desenvolvimento em relação a esses filhos da África espalhados pelo mundo. Vocês têm isso presente no vosso meio lá no Alabama, fazeis alguma coisa neste sentido, que significado tem para vós?

Acho que a Década é um convite a todos nós a partilharmos as nossas histórias, experiencias, acho que é algo que cada individuo pode fazer ao seu próprio nível, no seu ambiente e comunidade e partilhar seja que se trate de algo alegre, seja que se trate de experiencias amargas de ser afrodescendente nos Estados Unidos. Espero que isto aconteça.”

- Mas fala-se da Década no vosso ambiente, tem havido eventos sobre isso?

"Neste momento não estou ao corrente de eventos específicos, mas sei que há uma atenção contínua em relação ao contributo, aos sofrimentos dos afrodescendentes nos Estados Unidos. Sei que em Montgomery foi inaugurado recentemente um Museu de Memória das Linchagens. Convido os ouvintes a pesquisarem no “Equal Justice Iniciative” que está a fazer um trabalho interessante. Bryan Stevenson é o Director e abriu um novo Museu em Montgomery, no Alabama para honrar a Memória daqueles que foram linchados nos Estados Unidos."

09 outubro 2018, 16:18